Carta a um Amor Regressivo

Por Alan D Braga, .
Rascunho automático 6

Toda cidade é um organismo vivo. Não sei onde eu li isso, em que livro, em que caderno de jornal, mas é o que a gente percebe quando volta a um lugar. E talvez o senhor também pense um pouco assim ao abrir cada uma dessas fotografias. Como mudou essa cidade… Não sei se para melhor. Tentei passar pelos mesmos lugares, no entanto, pela descrição que o senhor fazia, pelas referências, pelas indicações, e até pelas lembranças de infância, quase nada parece igual – Ou então eu fazia realmente outra ideia desses lugares… Não sei se para melhor.

Muita coisa aconteceu nas últimas semanas. Ao ver as imagens, dá pra perceber que passei de uma melancolia herdada para uma alegria desmedida, muito em função do rosto novo, lindo, que começa a aparecer ao meu lado do meio para o fim do álbum. O nome dela é Carolina. Ela é natural daqui, como a mamãe… O senhor poderia dizer que a história se repete, mas assim como o cenário, os personagens também são um pouco diferentes.

Era uma noite quente, como aquela em que o senhor e mamãe se conheceram. Quem me levou para a festa foi a Aninha. Ao contrário da Tia Ivone, a Aninha torceu a favor. Ela não conhecia a Carolina, não podia facilitar a apresentação, mas também não ficou com ciúmes. Tudo bem, primo é diferente de irmão, mas a falta de pré-julgamento foi menos um impasse pra minha história.

Assim como naquela noite quente, nessa tocava samba. É como o senhor diz: nenhuma trilha sonora combina mais com essa cidade do que o samba. Porque aqui não é só o povo que parece caminhar na cadência, mas o bondinho, a curva, o morro, a árvore, a areia, o mar, tudo harmoniza no mesmo ritmo. No samba, o organismo transpira. E nesse compasso, em meio a muita cerveja e muitas saias leves em movimento, enquanto eu pensava cada vez mais no encontro de vocês, a visão congelou na beleza mais destoante do salão: de calça rasgada, camiseta preta, cabelo de um vermelho impossível, Carolina era a única que não dançava. Apesar do som ou da temperatura, entre goladas e risadas, ela parecia se divertir com as presenças, as conversas. E por mais que a minha vinda tivesse o propósito claro de capturar a essência da cidade, o coração preferiu aportar em uma baía indiferente ao mar. Carolina parecia ser tudo, menos carioca.

O filme a partir dali passou como um trailer: a primeira conversa, o primeiro riso, o primeiro beijo, a primeira noite… Quando percebi, ela era minha guia pelas vielas mais úmidas, pelos becos mais perigosos, pelas texturas mais variadas. Tudo se tornou imprevisível e enxerguei um novo organismo através dos olhos claros de Carolina. E a trilha sonora passou do samba para o rock pesado, porque ao invés de dizer no pé, ela prefere bater cabeça.

Assim, em novo ritmo, conheci esse cenário ainda colorido, mas sem muitas das cores que o senhor pintava… Sem aquele neon, aquela fosforescência ou aqueles tons de mudança. Um cenário até bastante combalido, desesperançado, de um organismo que, embora tente permanecer saudável, precisa combater dia a dia as células ruins que insistem em explorar, extrair, expurgar a grande parcela de células boas que o mantem vivo. (Desculpa por esta analogia fora de mão, mas também não consigo parar de pensar nisso… E acho que cada vez mais enxergo o forte elo entre o senhor e essa cidade).

Esse novo olhar está no álbum que te mando… O Tivoli Park não existe mais, mas a Lagoa continua um bom programa. Eis aí também o Circo Voador de hoje, um simulacro carente de toda aquela ebulição, mas que fica como uma representação de todas aquelas histórias. Como pode ver pela mesma imagem, a Lapa fervilha, numa boemia além do submundo. São esses pontos de mais movimento que garantem alguma segurança na madrugada. Mas nem tudo está diferente. Mesmo sem a Help, sem a cascata do Méridien, Copacabana continua aquela confusão e as mulheres de Ipanema, mesmo sem o fio dental, continuam lindas, no doce balanço. E para além da história de vocês, ainda tive direito a uma feijoada da Portela, uma festa no Cordão da Bola Preta, uma cachoeira no Horto, um mergulho em Grumari… Até que o primeiro conflito surgiu. Porque toda harmonia tem um ponto de revolução.

Não sabia onde morava a interseção entre Carolina e a cidade, até a primeira cena de ciúme. No caso, cena que eu mesmo fiz, de um ciúme só meu. A reação foi arrebatadora, intensa, num único corte… E foi na ruptura do cheiro, do gosto, do abraço, da proximidade imediata com que ela me conquistou que compreendi que não há como apreender um organismo que presa pela própria autonomia. Foi na ausência da alegria, da espontaneidade, da irreverência, que percebi que minha retidão não conseguirá ficar muito tempo sem ela. Carolina é uma incógnita maravilhosa para um coração provinciano… Assim como essa cidade. E hoje entendo porque o senhor passou tanto tempo revivendo essas memórias. Não existe razão para essa magia, a gente apenas quer continuar vivendo nela.

Eu gostaria de estar aí para ver a reação do senhor ao abrir esses arquivos, mas minha história ainda não acabou. E sei que, melhor que qualquer pessoa, o senhor entenderá. Preciso tentar. Preciso voltar. Mando meu melhor beijo, que segue com o desejo de te ver em breve, de pé, forte como sempre foi… E que nesse dia o senhor possa conhecer a força que me fez ficar por aqui. Até lá. E torça por esse explorador de olhares passados, interessado apenas em reconquistar seu próprio canto no futuro.

Carta a um Amor Regressivo

  1. Uau!!!! Eu me senti dentro do filme. Amei!

Hey Jude,

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