Carta para o Rio

Por Nina Murtinho, .
Carta para o Rio 1

Oi Rio,

Confesso que não esperava escrever para você tão cedo. Tem apenas dois meses que fui embora… mas tive esse convite especial e achei que seria bonito. Tem algumas coisas que só fazem sentido quando a gente escreve, né?

Essa não é a primeira vez que te deixo, teve NY também em 2011, lembra? Mas dessa vez eu te deixei sem dia para voltar, e essa foi a parte mais angustiante da nossa despedida: uma passagem só de ida.

Fato é que não foi fácil me despedir de você. Para conseguir organizar com calma a minha saída do país eu me desliguei com uma certa antecedência do meu antigo trabalho. Por mais que eu amasse o que fazia, eu sabia que “ir sem data para voltar” me faria querer acumular um pouquinho de você.

Era como se eu precisasse preencher a minha alma de Rio.

Eu queria poder andar nas suas ruas devagar, sem pressa. Dar uma volta inteira na Lagoa em 24h só para não perder nenhuma cor, que vai mudando com as horas.

Eu queria passar pelo Jardim Botânico só olhando para cima, para sonhar sempre que o céu tem palmeiras e garantir que o Cristo está lá, sempre, de braços abertos. E aquela espiadinha através do muro do Parque Lage só pra dar aquela suspirada de “como isso é bonito!”

Sentei no bancão de pedra da Praia Vermelha só para assistir o vai e vem dos bondinhos e fui até a mureta da Urca pra tomar aquela cerveja bem gelada.

No caminho para a Barra, me veio aquela lembrança amarga de todas as horas de trânsito desperdiçadas, mas do alívio que era chegar no Joá e olhar aquele marzão infinito. Acho que não teve nenhum dia que eu não abrisse um sorrisão naquele viaduto. Idem para aquela saída triunfal do Rebouças e dar de cara com a Lagoa. Como um buraco negro, cheio de poluição e buzinas pode culminar numa paisagem tão linda? Em você isso é possível.

Sabe o pôr do sol da varanda do apê da minha melhor amiga? Aquele mesmo em frente ao Posto 1 da Praia da Barra… Fiquei dias pensando em como enfiar ele na minha mala – com ela junto, claro!

Fiz um óculos de grau no Centro da cidade só para ter o prazer de caminhar por suas ruas e entrar na livraria da Travessa da 7 de setembro para brincar de escolher os livros pela capa. Depois aquelas lembranças de fim de mais um expediente. Cerveja gelada no boteco e almoço naquele japonês da pracinha que a gente ia mesmo pelo pastel de chocolate do final.

As exposições do CCBB me lembram tanta gente… os passeios de escola, as melhores amigas da infância, meu pai, meu irmão, meu marido… Parece que posso contar minha vida ali de dentro.

Mas a Praça XV, ah, aí você pegou pesado. Eu passei ali com lágrimas nos olhos de lembrar dos cortejos mais emocionante de carnaval. Lembrei do primeiro que eu fui do Boitatá, há anos! Lembrei de entrar pelas suas ruas a levitar num mar de gente feliz, uma felicidade genuína e democrática. Um pulsar de vida inesquecível. Que, não é para você ficar convencido, mas só você tem.

Eu mergulhei nos seus clichés mais profundos. Fui nos meus restaurantes preferidos – uma das mais novas descobertas com vista pro Arcos da Lapa. Encontrei as pessoas mais especiais da minha vida que te habitam.

E sabe do que mais? Seus clichés são lindos demais, mas mais do que isso: existe tanta vida e beleza além deles. E é disso que sinto falta. dos pequenos detalhes que a gente compartilhava juntos.

É estranho pensar em me sentir mais segura aí do que em qualquer lugar do mundo. Porque não é da segurança física que te falo – nisso está bem difícil pra você, cara. Mas eu tô falando da segurança emocional. É da segurança de te conhecer tanto e saber onde encontrar cada coisa. Da segurança que eu encontro por trás das portas das casas da pessoas que eu amo. De poder ligar para uma grande amiga e dizer “vamos jantar mais tarde?”. De andar pelas suas ruas sem GPS, sem mapa, waze ligado só mesmo para descobrir o caminho mais rápido.

Hoje, o mesmo mar que me fazia sorrir ao se parecer infinito, nos separa a 8000 km e eu que achava bonita a imensidão, só queria que ela fosse mais curta.

Então por mais violenta que você esteja, por mais corrupção que haja, e por mais tristeza que me dê em te ver assim, você ainda é o meu porto seguro.

E de uma coisa fique certo, a gente nunca esquece de onde a gente veio, porque você foi o meu primeiro lar, é em você que eu conto a história da minha vida até hoje. E mesmo com tantas tragédias, quando eu falo seu nome as pessoas sorriem e eu me orgulho. Porque foi aí que eu me tornei quem sou hoje e que eu conheci as pessoas mais importantes da minha vida.

Semana passada assisti a um documentário em que no final uma das personagens dizia “eu achava que os problemas passariam, mas o que passou mesmo foi o tempo.” Um tempo que não volta atrás, entende? Há uma sensação de que lugar nenhum no mundo vá te substituir. Mas a verdade é que tenho medo de te perder com o tempo. Porque tenho encontrado a felicidade pelo meu caminho e fica a dúvida se daqui há uns anos eu possa te escrever diferente. Ou eu pouse aí de volta. Quem sabe.

Enquanto isso, se cuida. De verdade. Cuida dos seus, dos meus, dos nossos. Não nos dê motivos para desacreditar em você. Sim, eu sei que os nossos também precisam fazer a parte deles, mas tá vindo aí uma geração linda. Que eu espero que não desista de você e que tenha força, que talvez tenha me faltado, pra te fazer do tamanho que você é.

Amo você, gigante.

Um beijo com carinho

Carta para o Rio

  1. Ana Luiza Marques Fonseca

    Coisa mais linda isso…chorei de saudades desse Rio lindo que também me pergunto… será que teremos um dia de volta? Gosto e também compartilho de muitas coisas que aqui você cita tão carinhosamente “homenageando” nossa cidade (Sou mineira, mas ela tb me ganhou o coração…). Prazer ler isto. Que o Cristo de braços abertos…não cruze os mesmos…e desista de nós…É que ele deve tá bastante “cansado, chateado, aborrecido e sobrecarregado” com tanta coisa errada que ele anda vendo lá de cima…que o Arpex com seu lindo pôr-do-sol (com hífen, por favor!) nos deixe andar de volta por suas pedras , sem tanta “nóia dos acontecimentos à volta “… eu…por exemplo…tenho ido lá mais não…com o perdão do desabafo…que “M” isso! é muito triste…infelizmente tenho “evitado” muitas coisas /lugares que gostava de fazer/ir. Triste d+…Então… também espero: “Volta Riooooô!”. E se você voltar…que ele possa merecer uma carioca tão apaixonada por ele… e tão”sentida” por tudo. E com razão. Um prazer, viu? e um Viva a Portugal, “ora pois” cidade tb nossa um pouquinho…por direito!

  2. Lindo Nina!!! Estou virando sua fã!! Adoro ler TD que vc escreve. Parabéns!!!

  3. Por mais textos assim, com beleza, suavidade, charme e saudade. Parabéns, Nina!

  4. Cristina Tibau

    Menina linda, me emocionei com seu lindo texto. Que maravilha!!! Parabéns!!
    Um grande beijo e sucesso nessa nova vida.

  5. Que texto mais lindo!Daqueles que a gente ia adorar ter escrito de tanto que sentiu ,do tanto que emocionou. Muito orgulho de você. 😍

  6. Vianna jussara

    Parabéns! Nina texto muito lindo como todis os textos q já li escritos por vc.

  7. Parabéns Ninoca linda carta para nossa cidade que é maravilhosa!!!

Hey Jude,

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