Importâncias Não São de Superfícies

Por Samara Soriano, .
Importâncias não são de superfícies

Eu ainda me lembro dos tempos de estagiária que me faziam percorrer as ruas da Cinelândia, no Rio. O correr entre as brechas da agenda e os cenários repetidos fazia de tudo paisagem. Passagem. Os ônibus eram vultos; os ambulantes, vozes; as pessoas, ombros aleatórios, braços em marcha; e os peitos, muros, freios entre um esbarrão e outro. Alguns moleques desafiavam o tempo e o espaço, enquanto o sol se esforçava pra tocar o chão espremendo-se entre os prédios altos daquela região. Na sempre mesma esquina, um senhor ilusionava entre os feixes de luz e as fumaças da cidade. Era negro, muito magro, esguio, com os cabelos brancos e crespos, nariz grande, olhos redondos e cerrados, me pareciam marejados em constância, contraste com a pele seca e rachada. Dedos longos, pernas extensas invariavelmente na mesma posição e pés que transbordavam as sandálias. Vestia as mesmas camisa de botão branca com listras azuis e calça social marrom. Sujas e surradas. A postura sempre impecável, ereta e as mãos debruçadas sobre os joelhos… Era o único sinal de mendicância nele, sempre calado. Eu ainda me lembro deste senhor como a pausa diária das minhas corridas. O exemplo mais genuíno de elegância que tornava mágico todo o cenário a sua volta, tal qual eu descrevi.

Nesta mesma época eu estava apaixonada por uma cantora britânica ainda pouco conhecida por aqui e ouvia suas faixas em looping. Valerie, In My Bed, Stronger Than Me… No trabalho, eu era a que a introduzia para todos e falava com propriedade sobre seu estilo. Sua voz era forte e presente, ainda que abrisse espaço para uma certa timidez e rouquidão. As letras, autobiográficas, humanas e, por isso, errantes. As melodias retomavam o jazz and soul da década de 60 e mesmo assim soavam novidade das boas! Ela tinha bastante singularidade nos vibratos, nos riffs de guitarra, nos penteados, maquiagens e roupas. Peculiaridade na postura sobre os palcos e diante da vida. Amy tinha apenas 1,59m, alguns pouquíssimos quilos, dentes grandes, disruptivos e amarelos. Traços que muitos chamariam exóticos numa espécie de eufemismo. Surpreendia a todos a potência na voz e nas atitudes que saíam audaciosamente de um corpo tão pequeno e esquálido. Amy, tão fora do padrão, influenciou a moda, driblou o showbiz, tornou-se ícone, fincou os pés magrelos na história. Médicos e jornalistas dizem que Amy não resistiu ao uso abusivo de álcool e drogas, mas tenho pra mim que era excessiva mesmo nas paixões. Morreu porque tinha uma alma intensa e um coração frágil vivendo num mundo que ainda não sabe dosar o real valor das coisas.

Em 2008, eu fazia parte de uma equipe muito jovem na agência de comunicação que me excursionava diariamente para aquelas bandas da cidade. Quando eu não estava a falar de Amy Winehouse, trocávamos entre nós todas as nossas recém descobertas, e experiências, e viagens, também relacionamentos, monografias e paladares. Éramos um grupo, felizmente, muito híbrido, o que nos enriquecia mais ainda sem sequer darmos conta na época, acho. Cultivo sincero carinho por todos, mas uma em especial: Dai. Com nome de princesa, tinha mais porte é para ser nossa rainha tamanho o espírito maternal. A mais nova do grupo [alguns meses a menos do que eu, ok!] com inigualável cuidado, atenção, ternura e firmeza irmãmente distribuídos. Arrisco a dizer que Dai já nasceu adulta, pisca para o norte com tanta certeza que não abre espaço para dúvidas. Coitada! Sabe-se lá o que faz com suas inseguranças, afinal, ela deve tê-las. Ela as tem. Aquele sorriso largo é que nos engana. Quem escuta esse nomezinho pequeno não imagina que Dai é de grandiosidades. De braços grandes pra abraçar o mundo, de cabelos grandes pra esbanjar encantos, de gargalhadas grandes pra espantar a tristeza, de coração grande pra acolher a todos que dele precisarem. Dai é mesmo uma mulher grande, de medidas que extrapolam os padrões. Sobra nela a gentileza que falta na multidão. Tanto amor dentro de si deve mesmo pesar!

Dai, Amy e o senhorzinho da Cinelândia têm algo em comum: uma beleza genuína que exala pelos poros e envolve a gente. Desde que saí da agência, há quase 10 anos, não sou mais tão frequente por aquela área, porém vira e mexe ainda me pego pensando no senhor que me instigava pausas. [espero que esteja bem!] Já faz 7 anos da morte de Amy. Perdi a assiduidade nas suas obras, mas quando por ventura as escuto, me transportam a emoções, hábitos e causos. Por alguns segundos, esqueço que não dividimos mais o mesmo plano. Hoje, Dai é grande em Portugal. Ouvi dizer que já conquistou muitos lusitanos com a imensidão daquele coração. Não me surpreende! Com sorte conseguimos nos reencontrar a cada 12 meses. Incrível como em cada reunião o tempo parece não ter passado…

O tempo, sempre ele! Me ensinando que importâncias não são de superfícies.

Belezas existem em diferentes graus e nuances. Quanto mais profunda, mais protegida é das intempéries do lado de fora. Vira áurea e derrama em essência. Eterniza! Sequer discute formatações porque convence pela unicidade. Oxalá assim enxerguem também as minhas belezas… mas já aviso que para vê-las, é preciso carregar algumas dentro de si.

S2,

COLAB

  1. Sempre te achei incrível….
    Depois de te conhecer mais a fundo, por aqui, impossível não achar que você ultrapassa dessa esfera!
    😘

  2. Mariana Crivano

    Verdade que eu já aprendi há tempo: Só enxerga o belo no outro – e na vida – aquele que tem beleza dentro de si. E carregar beleza definitivamente não é pra qualquer um. 😘

Hey Jude,

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