Nutrição Emocional

Por Samara Soriano, .
Nutrição Emocional

Quando garota, meu pai costumava me chamar de “gordinha do pai”. Cresci com a minha mãe regulando o que eu comia e ele me recompensando com bombas e mil folhas. Na escola, no grupo do prédio e nos cursinhos complementares, eu costumava ser uma das maiores – pra cima e para os lados – e, na adolescência, a cada dia eu percebia o peso e o tamanho da herança genética da minha família materna nos números do meu sutiã.

Como 99,9% das mulheres, cresci intercalando meus anos entre dietas da moda e meteções de pé na jaca; entre períodos dedicadíssimos à academia e tempos de completa ojeriza daquele lugar; entre menos 2kg e mais 4kg; entre leve aceitação e brusca rejeição. Até que, graças a Deus, amadureci… e cansei definitivamente de viver insatisfeita com o que sou. No clímax da objetividade dos meus 30 anos [hoje, 32], pensei: “Mulher, sério que você passará sua vida inteira nesta guerra consigo mesma?”

Porque é muito triste ouvir da sua própria irmã que ela não se ama porque está gorda. Como assim? E a mulher inteligente pra caramba, divertida à beça, lindamente bem-sucedida, ultrajantemente competente que eu enxergo, modelo para mim de um pouco mais do que quase tudo, não serve de nada? Que indigesto! (…) É triste só poder marcar uma pizza com a sua amiga na frequência das metas de perda de peso dela, é triste sair para jantar a dois e comer sozinha, é triste chamar suas refeições por nomes químicos e pesar e medir e intervalar suas porções quase que laboratorialmente. É muito triste usar comida como punição ou brinde. É uma relação lamentável com o que deveria te alimentar não apenas de nutrientes, mas também de bons sentimentos.

Guardo na memória os almoços de domingo que a minha avó preparava para toda a família. Era sempre macarrão com carne assada. E se fechar os olhos, ainda sinto na boca a textura inigualável do bolinho de carne que ela fazia, que nem minha mãe ou minha tia conseguem imitar porque não é questão de receita. Lembro também da cocada e do “bolo de nada” com cobertura de limão. Tão simplinho e tão dela. Me lembro da sopa de feijão com temperinhos mil – minha irmã conta que esta era a solução da vovó pra estender o feijão quando o mês ficava mais apertado. E tenho especial saudade dos lanches da tarde com pizza de forno de sardinha, pasteis de queijo minas, pudim de pão e, claro, do suco de groselha do vovô. Que xarope! rsss

É à mesa que se sucede grande parte da minha vida. Desde os biscoitos de água e sal que acompanhavam os estudos das provas de final de bimestre do colégio, aos esperados lanches de sexta-feira a noite com refrigerante e frituras finalmente liberados pela minha mãe, aos almoços barulhentos de domingo com toda a família reunida, e também os cafés purgantes – puros e ferventes – companheiros das decisões mais difíceis. Mesmo frente a perda do meu pai, nos vi sentadas entorno da mesa. Sem conseguir mastigar uma migalha de pão, digerimos toda a história que aquele lugar representava. Agora sem ele: a mesa.

Eu entendo as chamadas que o corpo dá. Entendo a importância das boas escolhas que refletem do prato para a vida. Mas me recuso a fazer dieta de todos os maravilhosos instantes que acompanham o ato de comer, porque há de se nutrir também a saúde emocional. Então, neste Natal, a cada rabanada, pedacinho de aletria e bolinho de bacalhau, não julgue as calorias, senão a preciosidade do momento. (…) E se quiser cumprir com a tradição, credita os quilinhos a mais na conta de 2018!

PS: Dedico este texto à vovó, ao vovô e ao meu pai que, seguindo nossos mandamentos, cearão diretamente da mesa dO Cara.

S2,

COLAB

  1. Que texto – mais uma vez – lindo! Deu fome de continuar lendo ele por linhas e linhas

  2. Selma frazao

    Me fez chorar, relembrando de seus avós e de seu pai. Saudades! Realmente aquele bolinho só ela sabia fazer… igual não existe. Bela homenagem,bjs 😙😙😙

Hey Jude,

Talvez você goste destas aqui também: